domingo, 31 de março de 2013

Páscoa no Algarve, com chuva......!!!!

(Páscoa com chuva) = binómio nada agradável

Sobretudo para quem tem em vista sair e fazer, neste período, uma breve paragem para poder regressar às origens, ou simplesmente ver outras paisagens, sentir outros aromas.....!!!!

Mas este ano calhou assim.....!!!

O Algarve é sempre um destino bastante escolhido, não só pelos naturais, mas também pelos forasteiros, que apenas vêm à procura de algum sol e de temperaturas que convidam a ir até à beira-mar, mas nesta Páscoa 2013, quem tinha tais planos viu-os gorados....

A chuva veio para ficar e parece que por mais alguns dias....!!

No entanto, quando o Sol resolve pedir licença à chuva...., passa por entre as nuvens escuras...., afasta-as um pouco para longe e diz: "presente".... É muito bom....., enquanto dura...!!!

E quando tal acontece, é logo um convite à fotografia, sobretudo quando o olhar se dirige para coisas que nos agradam ou que nos chocam....!!!

E nesta simpática vila da "FUZETA" (Freguesia do Concelho de Olhão), que a foto em baixo apresenta, onde já não ía há algum tempo, encontrei:


A praça central, bonita como sempre, um pouco pacata é verdade, mas onde é sempre muito agradável parar para tomar um café....!!!



Alguns edifícios muito antigos, mas em muito bom estado de conservação, que não me canso de admirar, cada vez que passo por perto...!!!!


Outros, infelizmente, tão degradados, que até faz pena....!!!!



Mas depois...., continuando até à zona ribeirinha, que maravilha de paisagem...!!!!

A Ria Formosa estava mesmo formosa....!!!

A maré estava a encher mas ainda deixava ver a zona de sapal;



Ao longe, a ilha lançáva um tímido convite;


O barco da carreira lá andava a transportar aqueles que íam ganhando coragem para se deslocarem até à outra banda...


Na zona do cais muitos barcos de pesca (grandes e pequenos) estavam ancorados e havia até quem neles estivesse a trabalhar, talvez nos preparativos para a próxima pescaria....!!!




Outros, junto ao cais, limitavam-se a apreciar o que à sua volta se passava e quem sabe, a recordar tempos idos, quando a Fuzeta era tão só e apenas a Vila dos que, daquele lugar, todos os dias saíam para a faina....!!!


Enfim....!!!! A Fuzeta, simpática Vila piscatória, estava uma graça nesta tarde de sábado, véspera de domingo de Páscoa, com pouco sol, mas com  uma temperatura muito agradável....!!!



Esperemos por dias melhores para podermos tirar partido desta e de outras paisagens....!!!!


terça-feira, 26 de março de 2013

Feliz Páscoa/2013.......


“Algumas coisas são explicadas pela ciência, outras pela fé. A Páscoa ou PESSACH, é mais do que uma data, é mais do que uma ciência, é mais que fé, Páscoa é amor”
(Albert Einstein)

A Páscoa é mais uma das celebrações religiosas…., desta feita para comemorar a ressurreição de Jesus Cristo.

E é já no próximo Domingo, dia 31 de Março, que festejaremos o “DOMINGO DE PÁSCOA/2013.

Nalgumas zonas do País, sobretudo no Norte, a população católica recebe nesse dia, a visita do “Compasso Pascal”, que é uma interessante tradição, em que um grupo de fiéis católicos percorre as ruas com uma cruz e um pequeno sino para anunciar a sua chegada e quando são convidados pelos habitantes a entrar, benzem a casa e os seus moradores, anunciando a boa nova da ressurreição de Jesus Cristo.

Na região de onde sou natural, não há essa tradição….., mas sim e apenas as procissões: dos Ramos, que se realiza no Domingo anterior ao Domingo de Páscoa e a do Senhor Morto, que se realiza na Sexta-Feira Santa, à noite.

Além destas festividades a Páscoa serve também para reunir as famílias num momento de confraternização e alegria e obviamente que, quando a família nesta altura se reúne, não podem faltar os habituais “folares”, “amêndoas” e outra doçaria que, por tradição, é própria desta época….!!!!


Desejo a todos uma PÁSCOA FELIZ....!!!!!

domingo, 24 de março de 2013

A extinta "Fundação Eugénio de Andrade"....



EUGÉNIO DE ANDRADE

Autor de uma importante obra poética


Gosto de Eugénio de Andrade, gosto muito dos seus poemas e de tudo o que a ele diz respeito....!!!!

Daí que, quando recentemente pretendi visitar a casa onde viveu os últimos anos da sua vida, na Rua do Passeio Alegre – na Cantareira – Porto (que aliás após a sua morte passou a ser a “Fundação Eugénio de Andrade” como era seu desejo), limitei-me a observá-la apenas do exterior…..!!!


Apreciei a fachada, o bonito local onde se situa, defronte do belo jardim do "Passeio Alegre" e pouco mais.....!!!!


Infelizmente, a Fundação foi extinta em 2011…., já não existe…e todo o espólio literário do poeta não se sabe ao certo onde estará…., ao que parece será a Câmara Municipal do Porto que o tem, mas disso também não há certezas…..!!!!

É uma pena….!!!!



 Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 22 de março de 2013

SERRALVES...... Primavera 2013




E a Primavera chegou….!!!!

Ei-la....!!! Ainda com alguma chuva, algum vento, mas já com o sol a espreitar aqui e ali, a aquecer-nos um pouco, fazendo esquecer o rigor do inverno….

E então…, nesta…., tal como noutras Primaveras…, há que aproveitar “bem” os dias luminosos, apreciar ainda melhor a côr do céu, sentir o cheiro das plantas e tirar partido de tanta coisa bela que está à nossa volta….!!!

E para tal, nada melhor do que visitar um parque e permanecer por lá algumas horas....!!!!!

Aqui fica então a minha sugestão para uma visita ao Parque de Serralves, no Porto, projectado em 1930, e que é uma oportunidade privilegiada para estar em contacto com a natureza, mesmo em plena cidade….!!!

São 18 hectares com uma diversidade de magníficos espaços, harmoniosamente interligados (jardins, matas e uma quinta tradicional), que constitui uma referência singular do património paisagístico português.

O vídeo que se segue apresenta um conjunto de fotos tiradas no local em apreço, nesta Primavera/2013......!!!!



quarta-feira, 20 de março de 2013

A vida de Camilo Castelo Branco (última parte)......!!!!!



Agrava-se a demência do seu filho Jorge e este é internado no Hospital Conde Ferreira, no Porto, em Agosto de 1886.
Igualmente os males de Camilo se agravam cada vez mais e, moralmente derrotado, a idéia do suicídio começa a surgir como a solução possível para pôr termo à vida, que para ele era já insuportável…..!!!

Num triste e desesperado documento, com data de 22 de Novembro de 1886, Camilo escreve:

“Os incuráveis padecimentos que se vão complicando todos os dias levam-me ao suicídio – único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira a insânia de meu filho Jorge e a segunda os desatinos do meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações da família. A mãe destes dois desgraçados não promete longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existência até ver Ana Plácido morta, infalivelmente me suicidaria. Não deixarei cair sobre mim essa enorme desventura – a maior, a incompreensível à minha grande compreensão da desgraça. Esta deliberação de me suicidar vem de longe como um pressentimento. Previ, desde os trinta anos, este fim. Receio que chegado o supremo momento não tenha a firmeza de espírito para traçar estas linhas. Antecipo-me à hora final. Quem puder ter a intuição das minhas dores, não me lastime. A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não poderia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada; deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e virtuoso quem o puder ser.”

No entanto Camilo continuou a arranjar forças e coragem para suportar o desespero causado por tantas fatalidades, nomeadamente a sua cegueira que estava prestes s dominá-lo, totalmente….

Em carta escrita a Martins Sarmento, datada de 10 de Outubro de 1887, Camilo escreve:

“Dou-lhe a triste nova de que estou quase cego. É a anemia dos olhos congénere da anemia geral. Faço o sacrifício de ir a Lisboa e sem esperanças ouvir os especialistas. Se os de lá não souberem mais do que os do Porto, estou pronto”.

Em cada momento da sua vida travava uma luta constante, entre “alguma” esperança que ainda lhe restava, de conseguir remédio para o seu mal, e o enorme desespero de pensar que a cegueira acabaria por derrota-lo, de vez….

Na época mantinha correspondência com Freitas Fortuna e pelo que escrevia é fácil perceber o seu estado de alma…..

“A desesperação vai-me desfibrando estas poucas cordas da alma que me prendiam à esperança.”
“Olhe que estou piorando por tal maneira que talvez daqui a pouco tempo só possa mandar-lhe notícias da eternidade.”
“Quando me lembro da nossa tranquila vida de Seide, da nossa independência, da nossa brilhante mediania e me confronto com estas trevas e com o que se passa dentro delas, à volta de mim, concebo da vida um tal horror, que não compreendo que a vontade divina influa nestes infernos.”

“Por aqui temos passado (Camilo e Ana Plácido) bem tristes, bem sozinhos, e bem pouco esperançados de que nunca mais volva para nós uma aragem de felicidade.”

Mesmo assim, em constante desespero pelo inferno em que se tornara a vida de ambos, o seu casamento realizou-se, finalmente, no dia 9 de Março de 1888, na residência de Camilo, no Porto, na Rua de Santa Catarina, 458, pelo pároco da Igreja de Santo Ildefonso…!!!

Contudo, nessa época, Camilo é praticamente um inválido….!!!
A esclerose e a cegueira impedem-no de se aplicar à escrita, que era a sua grande paixão e sempre foi o único meio do seu sustento e da sua família.

Já em 1889, vencido pela doença e pela invalidez, Camilo desiste de qualquer actividade e, em 21 Maio desse mesmo ano, como última esperança, dirige um apelo ao especialista de Aveiro (Dr. Edmundo de Magalhães Machado) para que viesse salvá-lo….
“Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste País durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego”.
Na sequência deste apelo, o médico foi vê-lo no dia 1 de Junho, de 1889, pelas 13,15h. Depois de o observar e certamente sem notícias minimamente animadoras para lhe dar, disse-lhe:

 “As águas do Gerês deviam fazer-lhe bem”

Pelas 15,15h, Ana Plácido acompanhou o médico até à porta e no momento em que este se despedia, ouviu-se um tiro de revolver…!!!! Camilo veio a falecer pelas 17,00h……!!!
Os últimos momentos da sua vida já Camilo os vivera de uma forma profética nestes versos dedicados aos filhos e que mais tarde Ana Plácido viria a publicar no Jornal  “O Leme”:

“Chega a morte! Vejo-a, sinto-a.
A luz dos olhos se apaga…
Vem, meu filho, abraça e beija
De teu pai a face fria.
Limpa-lhe o rosto orvalhado,
Não de pranto, que eu não choro,
Mas do suor da agonia.
Não me fujas, filho; imprime
Na tua alma esta imagem.
Daqui a pouco à voragem
Resvalou teu pobre pai.
Vem também, santa das dores,
Receber o extremo ai!
Não me vás levar flores
À Sepultura, não vás.
Leva-me os filhos felizes,
Leva-os contigo e verás
Que me aquece a luz da vida
Na sepultura esquecida,
Onde enfim hei de ter paz!”

O vídeo aqui incluído contém algumas fotos tiradas na casa de S. Miguel de Seide e a música do mesmo só poderia ser a do seu compositor preferido: Mozart (Sinfonia nº 25 em Sol menor).

terça-feira, 19 de março de 2013

Os dramas da vida de Camilo........


Como atrás ficou dito, para além do estado de saúde de Ana Plácido (que nos finais de 1879 estava gravemente doente) e da celeridade com que a cegueira o atingia, Camilo vivia rodeado de constantes e enormes preocupações relacionadas com o seu filho Jorge, que revelava sinais de loucura, tornando-se mais notória e desesperante no ano de 1880. 



É o próprio Camilo que o sente e confessa em carta dirigida ao Visconde de Ouguela:

“Principío a desconfiar que meu filho me está comunicando a demência. Tenho intervalos negros em que a vida me para e não me sinto na consciência dela. O estado de Jorge não oferece alguma esperança. Faz-me duplicada compaixão quando me pergunta se está doudo. Tem querido sair comigo. Já o levei ao Porto; mas a contemplação do público aterrava-o e pungia-me. (….).Predomina nos seus delírios a idéia de escrever um livro e tem a convicção de que é um talento para tudo. Era-o decerto em música e pintura. Desde que enlouqueceu, odiou o piano e na flauta denota o estado daquela alma. Não imaginas a negrura desta casa”.

Por outro lado, o seu filho mais novo (Nuno) também não lhe traz grandes alegrias, devido ao seu porte, que Camilo considera muitas vezes de incorrecto e grosseiro, conforme descreve em carta dirigida ao Dr. Vitorino da Mota:


“Eu, ofendido por grosserias do meu filho, intimei-o a sair daqui com os seus 7 burros, com os seus coches e com os seus lacaios. Se ele tem dignidade e brio, decerto se retira….”
Em simultâneo são as dificuldades financeiras que lhe causam também preocupações dramáticas, ao ponto de pôr a leilão os seus livros (a sua única riqueza), mais de 4.500 volumes, leiloados em Dezembro de 1883.

No entanto, no meio de tanto sobressalto, em Maio de 1883, a sua nora (Maria Isabel da Costa Macedo) que casara com o seu filho Nuno em Junho de 1881, dá-lhe uma netinha que passou a ser o seu enlevo.

Mas não foi muito duradoira esta felicidade, pois a morte leva a nora e a neta, no ano de 1884, em 30 de Agosto e 13 de Setembro, respectivamente, deixando Camilo dilacerado pelos acontecimentos.

“A criancinha tinha-me dado uma vida e uma alegria de empréstimo. O vazio que sinto aos 58 anos não há, em toda a natureza, uma sensação real ou quimérica que a encha.”
                                                   (Carta a Alberto Pimentel)

E resta-lhe chorar o desaparecimento precoce da neta querida:

 “Parecia dormitar: tinha morrido.
Pedi que a não levassem no caixão;
Que a deixassem mirrar e desfazer-se,
Como a flor se desfaz sem podridão.

Teimavam em levar-ma, e eu cingi-a
Ao peito que se abriu pela pressão;
Depois, pude esconde-la, e sinto-a morta
No meu despedaçado coração.”

(em Boémia do Espírito)

Um outro pensamento ditado pela saudade da sua neta:

“A morte da minha neta dessangrou-me todas as lágrimas.”

(continua)

sábado, 16 de março de 2013

A vida de Camilo na casa de S. Miguel de Seide....



Antes de mais é bom recordar que hoje, dia 16 de Março, de 2013, faz precisamente 188 anos que nasceu Camilo Castelo Branco…

Mas retomando à sua vida em S. Miguel de Seide, foi nesta casa que Camilo viria a fazer a sua residência “quase permanente”, durante 27 anos, até ao momento do seu suicídio…

É certo que muitas vezes se ausentava, porque uma das suas grandes preocupações era o sustento e a educação dos filhos e essa preocupação fez com que os levasse para Coimbra e aí ficasse com eles o tempo que considerava necessário, durante os períodos lectivos….

Também a sua doença o levou muitas vezes de terra em terra, em busca da saúde que parecia afastar-se dele cada vez mais, chegando mesmo a estar internado numa casa de saúde em Braga…..

Mas findas as aulas dos seus filhos em Coimbra, voltava a Seide e meditava, quer na sua doença, quer na necessidade de trabalhar.

“A minha vida é sentado debaixo de uma acácia, numa cadeira de cortiça, com três livros que não leio. Dantes, fumava e distraía-me a meditar na intoxicação da nicotina;  agora já nem fumar posso: o cérebro azia-me e fico com uma modorra dolorosa e estúpida”

Desde muito novo que Camilo começou a perceber que tinha problemas de visão, ao ponto de, ainda no cárcere, pedir algumas vezes que o deixassem sair da cela e dos corredores húmidos e escuros para apanhar um pouco de sol e ver a luz do dia nos pátios da Cadeia, pois já nessa época começara a sentir-se ameaçado pela cegueira….

Em carta dirigida ao Visconde de Ouguela, Camilo escreve:

“Passo mal. Não paro. As noites são intoleráveis. Se eu fosse só, como devia ser se tivesse juízo, já tinha resolvido isto sumariamente. Três vezes já fugi da Foz, e voltei. Não posso ler nem escrever.”

Mas além do sofrimento físico acresceram muitas dores morais que o consumiam….

Em 1877 (17 de Setembro), morre Manuel Plácido (filho de Ana Plácido), a quem Camilo queria como se de um filho se tratasse…., apenas com 19 anos, na sequência de uma pneumonia….


“Eu tinha assistido aos paroxismos de Manuel Plácido – aquele moço gentil que, cinco dias antes, era ainda a exuberante alegria da felicidade sem intercadências de tristeza – a flor dos dezanove anos com a raíz já ferida de morte e a corola cheia de perfumes. (…) Desde aquele instante, as minhas lágrimas só pode estancá-las o pejo de as mostrar.”
                                                       (em: Cenas da Hora Final)

Foi a 17 de Setembro de 1877

“Ah! perguntas se me lembro
Daquela enorme desgraça!
Nunca da mente me passa
Dezassete de Setembro

Ouço os gemidos cortados
Da lancinante agonia;
Vejo-lhe os olhos vidrados
Na órbita cavada e fria.

E a saudade a procura-lo
Nas estrelas; e a razão
A dizer: Queres achá-lo?
Procura-o na podridão.”

Depois, o estado geral de Camilo agrava-se em 1878 e, nesse mesmo ano, um descarrilamento do comboio entre S. Romão e Ermesinde, pôs em risco a vida do Escritor.

Para cúmulo, os seus olhos deterioram-se progressivamente e, pelos fins de 1879, Ana Plácido fica gravemente enferma.

Nesssa altura Camilo escreve ao Cónego Sena Freitas:

“Ana Plácido tem uma  angina pectoris. Eu considero-a perdida. Tenho dois filhos desta Senhora. Um deles é adulterino; está privado de lhe suceder nos bens. Além disso, se ela morre, a saudade ha-de pungir-me com o remorso de a não ter honrado aos olhos dos filhos e do mundo. Eu queria que V. Exª me obtivesse licença do seu arcebispo para eu a poder receber. (…). Escrevo-lhe às duas da manhã ouvindo-a gemer nas agonias do coração.”

Contudo, e não obstante ter sido concedida a licença para que Camilo se casasse com Ana Plácido, o casamento ficou adiado, devido a outras situações de grande preocupação e sofrimento que vieram a seguir-se na sua vida……!!!

(continuação no próximo post)




quinta-feira, 14 de março de 2013

A paixão de Camilo por Ana Plácido....


Como se disse no último post, Camilo conheceu Ana Plácido em 1850, mas só decorridos sete anos volta a encontrá-la no Bom Jesus do Monte......!!!

Nunca a esquecera......, e esse reencontro transformou a paixão entao surgida, numa chama abrasadora, que a partir de então viria a modificar toda a sua vida.....
Seduzidos um pelo o outro, vão unir os seus destinos, o que teve como consequência o abandono dum lar legítimo e o desafio da moral pública...
Assim, em Dezembro de 1859, o marido de Ana Plácido instaurou contra ambos um processo-crime, que os levaria à cadeia da Relação do Porto,......

Ana foi presa, em Junho de 1860, mas Camilo, fugido à justiça, vagabundeia por vários locais, é acolhido por vários amigos, mas entrega-se, voluntariamente à prisão, também na cadeia da Relação do Porto, no dia 1 de Outubro desses mesmo ano....


                                                    (Cadeia da Relação do Porto)

(Em memórias do Cárcere - I), Camilo escreve:

"Era uma risonha tarde de Maio de 1860 chilreavam as aves o seu hino crepuscular e de despedida ao formoso sol daquele dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acácias floridas da praça de D. Pedro, as quais vaporavam de suas urnas de branco e rosa aromas sauvíssimos.....E estava eu comtemplativo e devaneando nisto, quando a carta de um amigo me avisou de uma sentença que me privava de contemplar as acácias e aspirar os aromas e escutor arroubado os hinos das aves...."


                                                                (Praça de D. Pedro)

O julgamento, que termina com a absolvição, decorreu em Outubro
 de 1861 e a partir de então Camilo vem para Lisboa e torna-se um escritor incansável, que aliás já assim se revelara desde o período do cárcere.....

Ainda em Lisboa, em Maio de 1863, nasce o primeiro filho de Camilo e Ana Plácido (Jorge) e, em Junho desse mesmo ano, morre Manuel Pinheiro Alves (marido de Ana Plácido).
É nessa altura que Camilo e Ana vão viver para S. Miguel de Seide, para a casa que fora herdada pelo filho desta  (Manuel Plácido), então com cinco anos de idade.

O primeiro romance que Camilo escreveu em S. Miguel de Seide foi "AMOR DE SALVAÇÃO" e nele refere:

"A casa onde vivo rodeiam-na pinhais gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas".

E foi ali que, no ano seguinte (1864), nasce o seu segundo filho (Nuno), passando assim a família a ficar constituída, a partir de então por cinco elementos (o casal: Camilo e Ana Plácido com os seus dois filhos - Jorge e Nuno e, o filho de Ana , Manuel Plácido, herdeiro daquela casa)....



(Continuação no próximo post)

segunda-feira, 11 de março de 2013

A juventude de Camilo Castelo Branco...



Prosseguindo com este “caminhar” pela vida de Camilo Castelo Branco e reportando-me ainda ao período em que vivia com a sua irmã em Vilarinho da Samardã (mas já na fase da sua adolescência), percebe-se a sua enorme insatisfação com tudo o que o rodeia….., de acordo com o que veio a escrever em (o Nacional nºs 15 e 16 de 1850):

“em toda a parte estou bem ou não estou bem em parte nenhuma”;(….)

“O meu viver isolado não era só um capricho infantil; era uma desanimação de criança que amadureceu violentada como o fruto colhido por mão precoce…..”

E é com este sentimento de insatisfação que, em 1840, volta a Lisboa….

Porém, decorrido algum tempo (pouco), vai visitar uns parentes residentes em “Friúme”, no concelho de Ribeira de Pena, com a sua tia paterna que o acolhera aquando da morte do pai, e aí conhece uma aldeã de seu nome Joaquina Pereira, de quem se enamora e com quem acaba por se casar, no dia 18 de Agosto de 1841, apenas com 16 anos de idade…..

Este casamento, porém, dura muito pouco tempo, pois ainda nesse mesmo ano de 1841, aconselhado pelo sogro, começa a estudar com o padre Manuel da Lixa, da Granja Velha (excelente latinista), tendo em vista ingressar num curso superior, mas pouco tempo depois, em 1842, abandona “Friúme” (devido a uns versos satíricos que lhe causaram alguns problemas) e volta para Vilarinho da Samardã, onde apenas fica por um período de 3 meses, tendo depois partido para Lisboa….

Esta curta estadia em Vilarinho da Samardã resulta do facto de ter sido aconselhado pela própria família a abandonar o local, por esta ver com maus olhos um relacionamento amoroso de Camilo com uma camponesa da povoação que entretanto conhecera, de seu nome Margarida Maria Dias, mas conhecida por (Maria do Adro).

No entanto, em Lisboa fica apenas durante sete meses e, em 1843, matricula-se na Academia Politécnica do Porto e nesse mesmo ano, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, a qual apenas frequentou dois anos (entre 1845 e 1846), tendo perdido o 2º ano por faltas. Apesar disto, tenta ainda, em Coimbra, os preparatórios do Curso Jurídico, mas também sem êxito….

                                     (Academia Politécnica do Porto)

                                    (Escola Médico-Cirurgica do Porto)

Também nesse mesmo ano (1843), nasce-lhe, em Friúme, uma filha do matrimónio com Joaquina Pereira.

Logo após o abandono dos estudos na referida Escola Médico-Cirúrgica, e nos 4 anos que se seguiram, foram vários os acontecimentos que o levaram ao desespero:


  • Ainda no ano de 1846, passa por alguns episódios políticos (ao        serviço do Miguelismo).
  • Em 1847 fica viúvo pela morte da Joaquina Pereira;
  • Em 1848, morre a filha com 5anos;
  • Em 1849, por motivos sentimentais, tenta o suicídio.

“A âncora maldita do suicídio encorajava-me de brios de infeliz por entre parcéis de quantos infortúnios ressaltam de uma vida tempestuosa. Determinei matar-me. Era uma resolução firme, tenaz e indestrutível. (…….) Quem me salvou dessa febre de desesperação? O suicídio era-me então um cálculo, e contudo sobrevivi a essa rajada de morte, que perpassou, a esse hálito de impiedade que não teve forças de aniquilar a existência que empestou para sempre.”
                                                                                (Semana – vol. 1, nº. 36)

No entanto é em 1850, que, num Baile da Assembleia Portuense, conhece “ANA PLÁCIDO”, aquela que viria a ser a “sua mulher fatal”….

“Num baile foi que eu a vi pela primeira vez. (….)Era tudo majestade, tudo estatuária naquela criança.”
                                                                                     (em Anos de Prosa)


“Era num baile. Ondulava
De ouro e sedas o salão;
O ar que ali se respirava
Escaldava o coração”

Todavia, não foi a partir daquele instante que as vidas da Camilo e Ana Plácido viriam a cruzar-se…..,e por volta dos anos 1850/1852, Camilo tenta virar o seu destino e começa a frequentar aulas de teologia no antigo Paço Episcopal do Porto, alistando-se como candidato ao sacerdócio…..!!!!

Mas como sobejamente se sabe, não foi a vida religiosa que o conquistou....!!!

(continua no próximo post)




sexta-feira, 8 de março de 2013

A Infância de Camilo Castelo Branco.....



É muito difícil falar sobre a vida de Camilo Castelo Branco, mas facilitará talvez compreendê-la, se pudermos ler e meditar sobre alguns excertos retirados da sua vastíssima obra literária, apreciar alguns dos seus escritos, nomeadamente cartas ou documentos endereçados a amigos, memórias ou até mesmo pequenos comentários….!!!

Tudo isso dar-nos-á a possibilidade de entender melhor o sofrimento de toda uma vida, a sua sensibilidade, o seu carácter….!!!!

Ainda de tenra idade (pouco mais de um ano), fica órfão de mãe e, a essa enorme lacuna que para sempre marcará a sua vida, veio juntar-se uma outra…., a perda do pai quando tinha apenas dez anos….

O que a seguir se transcreve demonstra bem o sofrimento e infelicidade que sempre o acompanharam ao longo da sua vida…..

 “Eu nunca tive seio de mãe onde encostar a cabeça”
                                               (em Quatro Horas Inocentes)

“Mae, eu era inda criança,
Já te não vi: morta eras!
Buscou-te amor e esperança
E o coração que me deras”
                                (em Um Livro)

“Oh meu anjo de amor, que me deixaste
No meu berço a chorar!
Vigia-me do céu, já que na terra
Não pude os teus olhos escutar.

Eu sei que foste mártir de agonias,
Muito antes de mim.
Herança de amarguras me legaste…
Recebo-a, que a sofrer ao mundo vim.”
                                (em Duas Épocas na Vida)


Também numa carta que dirigiu ao seu amigo “Visconde de Ouguela”, Camilo escrevia o seguinte:


“Eu que não conheci mãe, aos dez anos já não tinha pai. Vê tu que mocidade tive e como toda a minha vida se havia de sentir da esterilidade de emoção com que passei a juventude.”


Numa das suas Obras No Bom Jesus do Monte”, Camilo descreve o momento em que se encontra sózinho com o seu pai, já cadáver….


“Entrei, por noite alta, na sala onde o meu pai estava amortalhado, sem mais companhia que quatro círios de chama azulada. Ajoelhei, sem orar. Afastei da fronte do cadáver o capuz do hábito e beijei-lha. Pus também a boca nas mãos glaciais: senti um frio, de que ainda o coração me guarda a memória: o frio do ambiente dos mortos. Ao meu lado ninguém. (……) E eu estava ali, destemeroso das sombras que desciam dos ângulos do tecto à penumbra do clarão oscilatório das tochas. Largo espaço contemplei a face de meu pai, aformoseada pelo resplandor da aurora do dia eterno. E assim ponderei as últimas palavras que lhe ouvira, confiadas ao frívolo espírito dos meus nove anos: (Que será de ti, meu filho, sem ninguém que te ame!.....).


Após tamanha “tempestade” (como ele próprio classificou), que se abateu sobre a sua família, Camilo é levado de Lisboa (“sua pátria”, como ele considerava) para Vila Real (segundo ele, “um torrão agro e triste do norte”), para ser confiado aos cuidados de uma tia paterna, onde permaneceu durante quatro anos.

Decorrido este período e após o casamento de sua irmã com um médico de  “Vilarinho da Samardã” – Trás-os-Montes, Camilo deixa a casa dos tios e passa a viver na companhia da irmã e cunhado.


(Em: "Memórias do Cárcere - II), Camilo Castelo Branco escreve:

"Nesta Samardã passei eu os descuidos e as alegrias da infância, na companhia de minha irmã......."


Também (em Duas Horas de Leitura), escreve o seguinte:


"O meu gosto era pascer o rebanho de casa por aqueles saudosos vales. Todavia, minha irmã opunha-se a este humilde serviço. Dizia-,e coisas que eu não percebia acerca da minha dignidade; repreendia os meus baixos instintos; atraía ao seu voto o marido e o padre e cortava-se o rasteiro voo escondendo de mim a clavina, o polvorinho e os salpicões e a boroa e a cabacinha de água-ardente. Não obstante, eu pedia tudo de empréstimo e ía com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, sentado nas espinhas daqueles alcantis fragosos, sempre sozinho, cismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenhadeiros".




Aqui ficam então estas breves alusões à forma como cresceu e viveu o período da sua infância.....!!!!