terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MARIA SEVERA

MARIA SEVERA, nasceu em Lisboa, aos Anjos, numa barraca nos montes.

Seu pai, Severo Manuel de Sousa, era de etnia cigana e a mãe, Ana Gertrudes, uma portuguesa de Ovar que, com outros pescadores da região, tinha emigrado para Lisboa.

À sua ascendência cigana atribui-se a sua beleza exótica e o seu cantar expressivo, que conquistou os boémios da capital.

A sua mãe (Ana Gertrudes), era uma célebre prostituta da Mouraria, conhecida pelo sobrenome de “Barbuda” e a própria MARIA SEVERA terá ingressado muito cedo na mesma profissão, tendo-se distinguido rapidamente nesse meio, não só pela sua beleza trigueira, como ainda pelos seus dotes invulgares de “cantadeira de Fado”.

Viveu em vários bairros de Lisboa: Graça, Bairro Alto, Mouraria e foi neste último que acabou por morrer.
Conta-se que MARIA SEVERA percorria os bairros populares de Lisboa e que a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tornando assim famosas, pela sua presença, as tabernas que frequentava.

A SEVERA cantava e batia o Fado na taberna da “Rosária dos óculos”, situada ao cimo da Rua do Capelão, na chamada “casa de pedra”.

A sua juventude, cheia de beleza, despertou paixões e ocasionou desvarios, fez perder a serenidade e a compostura de fidalgos, de burgueses, de artistas e de políticos.

Alguns escritos da época dizem que MARIA SEVERA era linda, era alta um pouco delgada, cabelos muito pretos, lábios muito vermelhos e nos olhos uma expressão indescritível.

Diz-se que terão sido os seus olhos que atraíram o Conde de Vimioso, aliado ao seu doce canto e à paixão deste pelo som da guitarra.

O Conde era um homem garboso e de boa figura. Foi o primeiro cavaleiro tauromáquico da sua época, facto que não foi indiferente a MARIA SEVERA, pois ela revelava um enorme entusiasmo pelas corridas de touros e sobretudo pelo toureio equestre. Ora foi esse entusiasmo de MARIA SEVERA por esta arte, que originou, não só a sua aproximação ao Conde de Vimioso, mas também que ela tantas vezes o tivesse cantado em letras de Fados.

Havia, na verdade, um grande contraste entre a condição social destes amores (MARIA SEVERA/CONDE DE VIMIOSO) e isso deu lugar a muitos boatos, mas também e sobretudo, a muitos Fados.

MARIA SEVERA teve a intuição de que após a sua morte ainda havia de andar muito nas bocas do mundo, como resulta destas sextilhas de sua autoria:

Quando a morte me levar
Não há decerto faltar
Quem diga mal da Severa!
Pois neste mundo falaz
De tudo se é capaz
E só o mal se tolera...

Lá na fria sepultura,
Nessa cova tão escura
Irei enfim descansar?
Pressinto que em expiação
E novamente ao baldão
Aqui terei de voltar...


Leviano e mulherengo, o Conde de Vimioso acaba por deixar a Severa e apaixona-se por uma cigana, facto que a deixa desvairada, mas, dado já se manifestarem sintomas da doença que a haveria de matar (tuberculose), MARIA SEVERA já não teve forças nem vivacidade para lutar pelo seu amor.


MARIA SEVERA morre pobre e abandonada, num miserável bordel da Rua do Capelão, a 30 de Novembro de 1846.
Consta que as suas últimas palavras terão sido: “Morro sem nunca ter vivido” – tinha 26 anos.
Foi sepultada em vala comum, sem caixão, conforme era seu desejo expresso nos seus próprios versos que cantava:


                                     Tenho vida amargurada
                                     Ai que destino infeliz!
                                     Mas se sou tão desgraçada
                                     Não fui eu que assim o quis.

                                     Quando eu morrer, raparigas,
                                     Não tenham pesar algum
                                     E ao som das vossas cantigas
                                     Lancem-me na vala comum.
Mas foi após a sua morte que ela se tornou, de facto, um símbolo do Fado.
Na verdade, desde então jamais os autores de letras de fados deixaram de a celebrar, sugestionados pela lenda dessa mulher de baixa condição que, todavia, logrou transpor os umbrais da fama.

De entre as muitas composições que falam dela, uma alcançou grande êxito (com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão):
                                          
                                           Num beco da Mouraria
                                           Onde a alegria
                                           Do Sol não vem,
                                           Morreu Maria Severa.
                                           Sabem quem era?
                                           Talvez ninguém!


7 comentários:

  1. Bravo Amiga....Um Belo Post, bem documentado...
    Este Blog está cada vez mais 'apetecível'
    Beijo

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  2. Belo artigo este.
    Está de parabens Albertina por mais esta bela obra, um verdadeiro documento histórico no que ao fado diz respeito.
    Quero pedir-lhe para publicar este texto no meu blog. Acho-o muito interesante, muito bem escrito, muito bem ilustrado e com ele vou com certeza melhorar a qualidade do blog do BART. E os meus companheiros Ovarenses e alfacinhas vão ficar encantados.
    Parabens e obrigado.
    LG.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Parabéns Albertina!
    Gostei muito do post sobre a Severa!
    Sabe que tb foi ela a 1ª mulher a tocar guitarra!
    Continue a trazer-nos estas preciosidades!
    Beijinhos
    Alcinda

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  5. Gostei imenso deste "post", fiquei a saber, por si, as circuntâncias em que viveu e morreu a Severa.
    Coloquei o link desta notícia no meu Facebook, e no de um amigo nascido e criado na Rua do Capelão; Espero que não se importe, pois ele é um documento histórico que precisa ser divulgado!
    Fico à espera de mais documentos deste.

    Joaquim Patrício Ferreira

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  6. Gostei do que li e gostaria de ser esclarecido quanto ao nome do pai de Maria Severa, pois nos documentos do casamento dos pais e do batismo apenas consta Severo Manoel.

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    1. Alguém me consegue explicar e qual a fonte do apelido Sousa para o pai da Severa.???

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