sexta-feira, 11 de março de 2011

MIRANTE

Do Livro de: DIAMANTINO PILOTO, intitulado “O MEU OLHÃO (crónicas) E CONTOS DE OLHÃO”:


“Claros-azuis, verdes-esmeraldas, às vezes espumosos, com entremeios de areais doirados e restingas escuras, põem o fundo na aguarela olhanense onde assenta a branca e alta mancha coroada a inúmeros recortes, ameias de palácios orientais.
Um branco que em aproximação ganha relevo descobrindo uma variedade impressionante de ritmos: rectas, ângulos, foles de concertinas brancas e, em dispersão, curvas de guitarras transparentes.
Mais próximo, atrás dos parapeitos ou das balaustradas, a louça pérola, luzente, por entre abóbadas ladrilhadas, sobem os mirantes prismáticos numa visível independência.
 

Para que os puseram? Ânsia de avistar, desejo de ver ou prazer de meditação. 
Quem os trouxe? Dizem que as águias ondulantes do Mediterrâneo os arrastaram das ilhas gregas.
Mas à noite, a geometria fluida precipita-se planificando-se e modelando visões: pardos trapézios, penumbras de chaminés truncadas, negros triângulos, sombras de portas entreabertas. Os arcos das escadas evocam moiras com véus de tule e na luz de raras janelas ondeiam odaliscas com lantejoulas: dançando à música do levante.
Avistar as velas na ria, as traineiras na barra e o infinito oceano.
Sou menino e do meu mirante avisto um bioco que avista um caíque.



 Ver do meu mirante: mulheres cosendo roupas ou soldando sapatos de ourelo; remos aos pares e oleados salitrentos. Ver saudações sinceras e……(faltavas tu, amor) beijos trocados. Sou menino e embeveço-me nos papagaios.


Medito no meu mirante. Medito nos poentes de Outono: fios de ouro debruando as nuvens. Quando o sol escorrega para Faro, que maravilha a ria escarlate de sangue vivo: imóvel espelho encarnado com botes pretos pairando.




E quando a noite apaga a forma e abafa a cor, deitado eu penso: Sou menino. Ai que ventura ter um mirante."



1 comentário:

  1. Gosto mais de Mirante..que de 'Açoteias.'..
    Fotos lindas..
    Beijo

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